Vivienne Westwood - a mÃe do punk
Por Fernando Schubach
Firme em suas convicções, a criadora britânica não abre mão de ser arrojada e de pincelar as suas coleções com deliciosas referências punk.

"Hoje as pessoas querem ser rebeldes, mas eu não acho que haja espaço para elas, porque a única e verdadeira rebeldia está relacionada a ideias, e não houve nenhuma ideia no século XX. Hoje em dia, tudo é ditado pela indústria de massa e pela propaganda. Minha moda não é para todos - você precisa ter algo de muito forte em sua personalidade para querer vestir minhas roupas.”
Vivienne Isabel Swire, nascida em Derbyshire, Inglaterra, aos 17 anos, mudou-se para Londres e algum tempo depois passou a dar aulas de inglês e casou-se com Derek Westwood, um diretor de uma escola de dança, com quem teve seu primeiro filho.


Influenciada pelo clima rebelde e liberal do final dos anos 60, a até então pacata mãe de família terminou seu casamento e iniciou uma viagem por uma vida completamente nova, pautada por muita polêmica e ousadia.
Vivienne conheceu Malcolm McLaren, que tornou-se rapidamente seu segundo marido. McLaren era um crítico do movimento flower power, pois o considerava sem sentido e comercial.
Juntos, em 1970, buscaram nos anos 50 a inspiração para a criação de sua primeira loja, chamada "Let It Rock" e localizada no número 430 da Kings Road. Lá, eles vendiam objetos e roupas que lembravam Elvis Presley e o rock and roll original da época. Com McLaren, a designer teve seu segundo filho, Joseph Corre, que atualmente é dono de uma das lojas de lingerie mais famosas de Londres, a Agent Provocateur.Westwood é sem dúvida alguma, uma das figuras mais importantes e reconhecidas do design britânico. Começou então a criar suas próprias roupas, pensando nos que vivem à margem da sociedade, negros e rockers. Em 1972, a loja passou a chamar-se "Too Fast to Live, Too Young to Die". Em suas coleções destacavam-se as peças em couro, t-shirts com estampas eróticas, motivos africanos, entre outros. Somente em 1974, sua loja já com o novo nome "SEX" trazia inspirações fetichistas, t-shirts rasgadas e aviamentos representativos do movimento punk. Nessa época, Malcolm havia se tornado produtor da banda punk mais influente da época, os Sex Pistols, também vestidos pela estilista.
"...na época, não me via como estilista. Procurávamos motivos de rebelião para provocar o stablishment. O resultado dessa procura foi a estética punk". Em meados da década de 80 ela se divorcia e muda-se para a Itália, passando a dar aulas na Academia de Artes Aplicadas de Viena, onde conhece seu atual marido Marc Andréas. Em 1981, Vivienne cria então sua primeira coleção, Pirates, apresentando looks com cortes inspirados nos séculos XVII e XVIII, romantismo vitoriano muito explorado pela estilista anos depois.

Em 1987 fez sua primeira coleção para o público masculino mostrando muito erotismo. O estilo escocês virou um padrão em suas coleções, normalmente ironizado, com a criação de roupas femininas sensuais e coquetes.
Nunca perdeu sua identidade e sempre se mostrou atenta aos acontecimentos do mundo lançando roupas inusitadas, como uma camiseta com a frase “Não sou terrorista, por favor, não me prenda”, feita em edição limitada protestando contra as duvidosas leis anti-terroristas adotadas pelo governo inglês depois dos ataques em Londres no ano de 2005.
Vivienne é o centro da moda inglesa há 34 anos, influencia gostos, pessoas e atitudes. Seu sucesso proporcionou uma retrospectiva no Museu Victoria & Albert de Londres com exibição com 150 peças e passagens significativas de sua vida e carreira. Foi apontada no livro Chic Savage como uma das seis melhores estilistas do mundo, e como estilista do ano duas vezes. Aos 64 anos ganhou o titulo de Lady da Rainha Elizabeth II.

Contra o consumismo
A roupa da marca Westwood é cara, mas segundo ela significa um investimento. "Compre uma coisa muito boa e não continue sempre a comprar." Ela recomenda: "Se tem dinheiro suficiente, faça-o durar. Aconselho as pessoas a procurarem arte e com isso vão deixar de consumir todo esse lixo; penso que se pode fazer o mesmo com as roupas."
Quer fazendo campanha contra o consumismo, a favor dos direitos humanos ou ainda exibindo as partes íntimas (ficou famosa por revelar tudo quando recebeu a Ordem do Império Britânico em 1992 e em 2006, depois de ser feita dama, ao dizer de novo que não levava calcinhas), Westwood tem o dom de provocar controvérsia.
Elaborou um manifesto sobre a natureza da cultura e das artes, que apresentou no Hay Festival, e fez uma campanha incansável pela libertação do activista Leonard Peltie, do American Indian Movement (AIM). Na verdade, as suas convicções são tão sérias que a tornam vulnerável a críticas, sendo por vezes rotulada com a etiqueta de "excêntrica e louca".
Agora, Vivienne quer salvar a floresta tropical. "A questão mais urgente é a floresta." Diz a ansiosa Westwood: "Se salvarmos a floresta tropical, temos hipótese de salvar o mundo tal como o conhecemos. Precisamos da cooperação internacional, não de competição entre países." Considera que o excesso de população e a exploração dos recursos da terra - associados ao nacionalismo - são os fatores principais que presidem à crise ambiental do mundo de hoje. Westwood está outra vez a utilizar a sua tribuna pública, explicando: "A única coisa que pode nos salvar é a opinião pública. A raça humana nunca antes enfrentou tal inimigo: É o próprio planeta que declarará guerra contra nós. Está em jogo o futuro dos nossos filhos e netos."
A solução que propõe é humanizar o nosso pensamento e globalmente juntar esforços (e dinheiro). Segundo diz, "colhemos aquilo que semeamos, esse é o meu lema. E poderia ser o lema do mundo se o aplicássemos a todo o planeta".
Com o seu talento para a agitação política, a moda não foi a primeira opção de carreira para Westwood. Na verdade, ela reconhece que a fez principalmente para ganhar a vida. "A razão por que continuei", diz ela, "foi porque estava cheia de ideias e queria aproveitá-las". Westwood vai ficar nos anais da história como a designer de moda mais intimamente associada à estética punk da década de 1970 (embora a sua influência se estenda muito além disso).
Por mais chocante que fosse o movimento punk para a sociedade desse tempo, Westwood pensa que não há espaço para uma rebelião semelhante, agora ou num futuro próximo. "Hoje, as pessoas querem ser rebeldes", diz ela, "mas acho que não há muito espaço para elas, porque a única verdadeira rebelião tem a ver com as ideias e não houve muitas ideias no século XX". A produção em massa e a publicidade são os maiores males no mundo de Westwood e em resposta a isso seus modelos dirigem-se aos que têm um sentido mais arrojado.
Publicado na Revista Única do Expresso de 6 de Março de 2010:
 




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